Patricia Tischler sempre esteve em movimento—seja entre cidades, profissões ou formas de expressão artística. De Brasília a Copenhague, do Direito ao Itamaraty, da escrita de roteiros à ficção literária, sua trajetória reflete uma inquietação criativa que se traduz de forma intensa em seu romance de estreia, Vanessa Halen: tudo o que não quis mas já.
Com uma narrativa envolvente que mescla investigação, viagens e laços familiares complexos, a obra mergulha nos impactos dos traumas geracionais, especialmente entre mulheres. Para Patricia, os carmas familiares são heranças difíceis de romper, e suas personagens vivem o dilema entre a reprodução inconsciente dos ciclos que as precederam e a necessidade de quebrar padrões em busca de cura.
Na trama, acompanhamos Vanessa Halen, uma jornalista investigativa que, ao lidar com a morte da tia-avó, descobre segredos que reconfiguram sua visão sobre o passado. Sua jornada a leva de São Paulo a Florianópolis, em meio a uma relação inesperada com Eric Clapton Guimarães e Souza—funcionário de um Poupatempo que, além do nome marcante, compartilha com a protagonista dores e histórias que ecoam gerações.
Nesta entrevista, Patricia fala sobre as nuances do feminino, a transição da escrita de roteiros para a literatura e suas influências artísticas. Também revela detalhes de seus próximos projetos, incluindo Tragédias Paulistanas, um livro de contos situados na São Paulo da década de 90 e início dos anos 2000.
Quais são os temas centrais do livro e como eles dialogam com a construção das personagens femininas?
O tema central de “Vanessa Halen: tudo o que não quis mas já é” gira em torno de traumas e do impacto que os carmas familiares têm em diferentes gerações. O maior foco recai sobre as mulheres e sua tendência a reproduzirem aquilo que aprenderam com suas antecessoras, além das dificuldades em identificar e superar esses padrões.
Neste livro, crio personagens que tentam não se render ao papel de vítimas, mas que, ainda assim, perpetuam ciclos de traumas e abusos de outras formas. No entanto, elas acabam se deparando com um divisor de águas que as impulsiona a tomar decisões não convencionais em direção à cura.
O que te atrai na complexidade das relações geracionais e nas nuances do feminino?
Gosto de explorar a importância e as consequências das relações geracionais. As dificuldades vividas por uma avó, por exemplo, influenciam a maneira como ela cria sua filha, o que, por sua vez, impacta a formação da neta. Esse ciclo, muitas vezes, se perpetua de maneira inconsciente.
Em especial, me atraem as sutilezas do feminino. As sensibilidades que, sob um paradigma masculino, são rotuladas como erradas, más, histriônicas, dramáticas ou exageradas. Isso, a meu ver, reflete uma falta de compreensão das diferentes realidades e a imposição de uma padronização masculina que impede as mulheres de aceitarem suas peculiaridades.
Os traumas podem se manifestar em padrões sociais, no ambiente familiar ou nas escolhas de vida. Às vezes, as mulheres tomam as únicas decisões possíveis, mesmo que isso gere consequências para as gerações seguintes. Fascina-me a ideia desses ciclos que, embora se repitam, apresentam nuances e mudanças.
Quais as principais mensagens que os leitores podem encontrar ao ler a obra?
A vida e as pessoas não são dicotômicas. Não existe uma decisão certa ou errada universalmente, mas sim escolhas com consequências. O que é bom para uns pode ser prejudicial para outros. Mulheres têm o direito de se colocarem em primeiro lugar e devem priorizar sua integridade. Além disso, a curiosidade e a abertura ao desconhecido podem transformar perspectivas e destinos.
Como o processo de transição da escrita de roteiros para a narrativa literária impactou a construção desse livro?
Após seis anos escrevendo roteiros e enfrentando dificuldades para encontrar parceiros de produção, comecei a fazer aulas de narrativa para testar a escrita de um livro de ficção. Escolhi uma história que já havia concebido para uma série de TV, mas que me parecia adequada para essa nova experiência.
São Paulo e Florianópolis aparecem no enredo como cenários importantes. Qual o peso dessas cidades na construção da atmosfera e das identidades das personagens?
São Paulo, onde cresci e me formei, foi o cenário escolhido por ser um ambiente que conheço bem e cuja linguagem ainda consigo compreender. A protagonista viveu muitos anos no exterior, uma escolha que reflete minha própria desconexão com a cidade após duas décadas fora. A ligação com Florianópolis surgiu pela relação com minha família e o tempo que morei lá, além da inspiração vinda de uma tia-avó querida.
O primeiro rascunho foi escrito em pouco mais de dois meses. Depois, pedi a alguém de confiança que fizesse uma leitura crítica, cujos comentários me ajudaram a reescrever e aperfeiçoar a narrativa. Quando me senti satisfeita, publiquei os capítulos semanalmente na minha newsletter, e fiquei feliz com a recepção, ainda que o público fosse pequeno.
O que, especificamente, te atrai na ficção em comparação à escrita de roteiros?
Escrever este primeiro romance abriu as portas da escrita de narrativas para mim. Percebi uma liberdade que não encontrava nos roteiros, além de poder expressar minhas “verdades” sem a pretensão de torná-las universais. Sem falar na maior facilidade para publicar e divulgar minhas histórias.
Como você definiria seu estilo de escrita? Que estrutura adotou no livro?
Deixo a análise do meu estilo para os leitores. O que posso dizer é que optei por uma narrativa em primeira pessoa neste livro por achar que ela impulsionaria o enredo para frente com mais intensidade, possibilitando explorar as descobertas sobre a história pregressa da tia-avó, o desenrolar do relacionamento com o Eric e o desvendar do passado da personagem principal ao mesmo tempo.
Por que escolheu o gênero adotado no livro?
Não me prendo a gêneros. São os temas que me interessam, independentemente do cenário: São Paulo contemporânea, uma distopia futurista, o Brasil dos anos 1920 ou o jardim de uma casa em Londres durante a pandemia. O gênero serve apenas como veículo para essas explorações.
Quais são as suas principais influências artísticas e literárias? Alguma influenciou diretamente a obra?
Sempre fui uma leitora ávida e passei por muitas fases. Apesar de sempre ter preferido a ficção à não ficção, e a literatura contemporânea aos clássicos (há exceções), já passei por tudo quanto é estilo e gênero, dos policiais aos romances históricos, dos europeus aos sul-americanos e assim por diante.
Atualmente, priorizo escritoras mulheres. Minhas autoras favoritas incluem Diana Gabaldon, Sally Rooney e Liane Moriarty. Entre as brasileiras, admiro Ana Rüsche, Surina Mariana, Fabiane Guimarães e Aline Valek.
Identificar influências diretas na minha escrita é difícil. Para mim, as inspirações mais palpáveis estão em experiências vividas, buscando na memória e nas emoções o material para minhas histórias.
Você escreve desde quando? Como começou?
Ao longo da vida, fiz várias tentativas de começar a escrever, mas sempre esbarrei na ideia de que eu não era uma pessoa criativa. Quando criança, como parte de um trabalho de escola, escrevi um livrinho de história mas aquilo, na minha cabeça, foi uma fase que passou. Eu usava essa necessidade de mundos inventados nas leituras, mas achava que a produção de histórias não era para mim.
Mesmo porque, naquela época meu foco era a ginástica olímpica e a cama elástica (trampolim acrobático), aos quais eu dedicava grande parte do meu tempo livre. Depois da adolescência, as pressões para encontrar uma “profissão de verdade” me levaram, muito por falta de opções, ao direito. Confesso que jamais me empenhei nos estudos, gostaria de ter mudado de curso mas não sabia para o que. De alguma forma, as carreiras “artísticas” não pareciam coisa de “gente grande”, jornalismo nem ao menos me ocorreu e, apesar de não ter qualquer afinidade com a área jurídica, essa me pareceu a decisão mais sensata, do alto dos meus 16-17 anos de idade.
Muito depois, aos 30 anos, já funcionária do Itamaraty em minha primeira missão ao exterior em Hanoi, Vietnam, foi que senti uma necessidade real de compartilhar minhas experiências com família e amigos. Tanto por meio de fotos, quanto por meio de relatos das impressões que aquele lugar tão diferente me causavam, escrevia longos emails (em 2007 não haviam todas as plataformas de hoje em dia), que deram origem ao meu primeiro blog. Escrevi esse blog por mais de 8 anos.
E aqui, vou fazer referência a um post que escrevi em In-Sight, que explica como descobri que era uma pessoa criativa: https://pattischler.substack.com/p/sobre-o-vietna-o-sri-lanka-e-o-nascimento
Quais são os seus rituais específicos para a escrita?
Como tenho um trabalho muito estressante, que consome grande parte do meu dia, já não disponho de tanto tempo para escrever como gostaria. Assim, não me obrigo a escrever diariamente, respeitando minhas necessidades de descanso. Ter momentos para “não fazer nada” é essencial, pois só assim a cacofonia do dia-a-dia se acalma, e o silêncio possibilita às ideias que estão lá no fundo virem à tona.
Ao mesmo tempo, escrever é o que mantém minha sanidade, é o que mais amo fazer no meu tempo livre, e o que me motiva a continuar em um trabalho no qual não me realizo. Assim, sem uma regra muito definida, procuro escrever com a máxima regularidade. Digamos que pelo menos umas duas ou três vezes por semana, sento na frente da tela para ver o que sai.
Quais são seus projetos atuais de escrita? O que vem por aí?
Finalizei o livro de contos “Tragédias Paulistanas”, e as notícias sobre a publicação virão em breve. E já comecei a converter dois de meus roteiros em narrativa. O processo é longo, mas quem sabe tenha novidades até o final do ano.
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ANA LAURA FERRARI DE AZEVEDO
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